Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

João Almeida e Rúben Guerreiro: raios de luz na escuridão

Quando João Almeida se vestiu de rosa no Giro, sorrimos – que atrevido, o rapaz! Depois, quando a proeza se prolongou, a incredulidade começou a procurar explicações. Uma foi a da Vuelta, que “caiu em cima” da prova italiana e que arregimentou muitos dos melhores ciclistas. Outra que saltou em menosprezo do mérito foi a da renovação geracional, acelerada pela ausência forçada de Itália de alguns favoritos. Ouvimos também as teses clássicas da oportunidade e da sorte, como se uma oportunidade não obrigasse a ter coração para a aproveitar e a sorte não desse imenso trabalho!

Dá-se o caso de o desporto ser um bocado como a matemática, ou seja, obtido um resultado é esse que vale e não as mais judiciosas teorias. Feitas as contas ao desempenho de João Almeida, que participou pela primeira vez numa grande volta para alcançar o que nenhum outro português conseguiu, verificamos que vestiu durante duas semanas a camisola de líder, terminou em quarto na geral e mais: cortou a meta tantas vezes entre os primeiros – 21 no “top 30”, das quais 11 no “top 10” – que foi terceiro na classificação por pontos, só superado pelos “sprinters” Démare e Peter Sagan. E a sua demonstração de força, mental e física, na etapa de sábado e no contrarrelógio final, foi sublime e constituiu mais um indício daquilo que de muito bom virá a fazer – tem 22 anos!

Mas Almeida não esteve sozinho a brilhar nas estradas transalpinas. Rúben Guerreiro, que ganhou uma etapa, chegou ao fim na 33.ª posição e venceu a classificação da montanha – feito único no ciclismo nacional – merece igualmente aplauso e admiração. Ao longo de três semanas, João e Rúben derramaram, na tremenda escuridão que se abateu sobre o país, inúmeros raios de luz, ânimo, alegria e esperança. Obrigado… e chapeau!

Infelizmente, quanto ao ciclismo iremos ficar por aqui, uma vez que nuvens carregadas ameaçam a Volta a Espanha. Desde logo, de terminar mais cedo devido ao estado de contingência. A seguir porque dos cinco portugueses em prova só Rui Costa e Nelson Oliveira terão condições para algo de particularmente meritório, embora o último se tenha afundado na tabela logo nas etapas iniciais e o nosso campeão mundial pareça distante da melhor forma. Talvez uma vitória numa etapa. E ontem já esteve quase…

O derradeiro parágrafo vai para a DGS, que ao cabo de alguns meses em que nos transmitiu uma imagem de segurança, entrou em absoluto desnorte. Casos como o do casamento deste fim de semana, que reuniu 200 pessoas em Arruda dos Vinhos – contra a vontade da impotente câmara municipal – repetem-se pelo país e foram até ultrapassados pelo “pornográfico” forrobodó de Portimão, com quase 30 mil (!) pessoas, a maior parte delas ao monte, a assistirem ao Grande Prémio de F1… E quanto ao futebol é a mesma desgraça: preterido por comédias, touradas e ajuntamentos políticos e religiosos no tempo em que o vírus parecia dar tréguas, passou agora a ter espectadores quando há países a recomeçar a fechar os estádios. Estamos entregues ao bicho.

Outra vez segunda-feira, Record, 26out20