E lá se vai o “exemplo português”…

Quando tudo fazia prever que o recomeço do campeonato seria mais um passo no retorno à normalidade possível – que a crise sanitária dava sinais de permitir e a economia exige – eis que os últimos dados da DGS voltam a formar uma nuvem escura. Ela faz com que o tão propagandeado “exemplo português”, que a Europa até há pouco aplaudia, comece a ser posto em causa. Não porque o desconfinamento seja demasiado rápido, uma vez que, com exceção da região de Lisboa e Vale do Tejo, os infetados diários não passam de 20 ou 30. O que estamos é a penar por décadas de uma indiferença social que permitiu o cerco da capital por dezenas de bairros degradados – como o “Jamaica” – onde, sem emprego e perspetivas de futuro, milhares de “desperados”, muitos deles desempregados e a viver na miséria, descem dos esqueletos de tijolo à rua, procurando no álcool e no convívio, em cafés ilegais e festas improvisadas, um escape para a violência e uma alternativa ao crime. Devíamos agradecer-lhes.

Enquanto António Costa esbarra nesta outra tragédia, em Espanha, o antes tão violentamente criticado Pedro Sánchez – que vai prorrogar, pela sexta vez, o estado de emergência – já olha para relatórios com melhores resultados que Portugal, como sucedeu na sexta-feira, dia em que os novos contágios se ficaram pela metade dos nossos. E ontem foram menos de um terço, 96 (!), “contra” os 297 de Portugal – 268 dos quais na região de Lisboa e Vale do Tejo.

É nesta situação volátil de saúde pública que regressamos ao futebol, sabendo que os estádios encerrados farão com que os adeptos se amontoem onde puderem, às dezenas e às centenas – se não for aos milhares. Isso irá fazer aumentar os contactos e as possibilidades de infeção, pelo que, se os números dispararem, o Governo e a DGS pagarão o preço.

Entretanto, prosseguem as cenas rocambolescas na feira de vaidades do futebol português, com as divergências saloias entre os clubes, o sai ou fica de Proença, a saga da aprovação dos estádios – que a DGS queria que fossem o “mínimo possível” mas que se pôs a validar e chegou aos 17! – ou a novela da ratificação das cinco substituições por jogo, a “decidir” em assembleia geral… já após o reinício do campeonato. Que coisa ridícula.

Tenhamos calma, trata-se de fogo fátuo. A partir de quarta-feira, o que estará em todas as notícias e o que aquecerá os debates recuperados da covid é o cartão que ficou por mostrar, o segundo amarelo excessivo, o vermelho que não saiu do bolso, a falta para penálti que o árbitro não viu e o VAR também não, a falta para penálti que o árbitro marcou e o VAR anulou, a falta discutível para penálti que o árbitro não assinalou e o VAR corrigiu… E por aí fora, numa lista infindável de casos e casinhos, intensidades e centímetros, polémicas e acusações. É esse, afinal, o nosso planeta do pontapé na bola, ora agitado pelo tempero do pontinho de avanço do clube errado. O espetáculo está garantido

Outra vez segunda-feira, Record, 1jun20.

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