De Júlio César a Mathieu: viagem pela nova época antes de ir ao banho

Deitado na areia da Comporta, dou comigo a pensar que se ele ferve em pouca água e por vezes parece maluco, com o tempo vai melhorar – a idade educa. Destrambelhado ou mais calmo, a verdade é que Sérgio Conceição já revelou, em poucas semanas no FC Porto, a maturidade e a sabedoria que faltaram aos seus antecessores, esses sim, dando a ideia de possuídos por uma incontrolável pulsão para agir sem pensar. A prova mais evidente do que afirmo é a falta de “reforços” nos Dragões e o aproveitamento inteligente que Sérgio está a fazer da dúzia de talentos que havia em casa. Tenho para mim que Casillas acabou por ficar também por ter compreendido que o delírio terminou. O caso de Aboubakar, um avançado com uma capacidade impressionante e antes dispensado de forma incompreensível, basta para se ver que regressou à cartilha portista a velha filosofia do bom senso e da eficácia.  A concorrência que se cuide.

Em Alvalade, prossegue a via-sacra da instabilidade com os centrais, um bloqueio que vem de tempos anteriores a Jorge Jesus e que o treinador ainda não conseguiu resolver. Semedo e Oliveira partiram, Tobias não está verde, está verdíssimo, Domingos Duarte não conta para JJ e André Pinto é um melão por abrir a este nível. Veio Mathieu, é certo, só que tem as caraterísticas de Coates: são defesas pesados, bons em muitos aspetos do jogo, mas lentos como o camião do leite. Lado a lado, vão dar imensos sustos – os sportinguistas que se lembrem do que ora digo.

À Luz está de volta um antigo problema que faz a casa abanar: a inexistência de um guarda-redes que dê tranquilidade. Júlio César vai, como facilmente se calcula, passar boa parte da época com limitações físicas, o que não lhe permitirá uma regularidade exibicional compatível com o seu nome e com o patamar que atingiu. Mas os encarnados estão em dificuldades com a defesa toda, pois saiu muita gente de qualidade, Grimaldo é como Júlio César – não tarda, lesiona-se e lá vem Eliseu – e Luisão precisa do respaldo de alguém mais ágil que Jardel ou Lisandro. A “chapa 5+2” de Londres é esclarecedora.

A revista “FourFourTwo” divulgou os nomes dos que considera serem os 100 melhores futebolistas da história. Cristiano Ronaldo está nos seis primeiros, sem dúvida os maiores de sempre, Eusébio ocupa um 23.º e injusto lugar, e Mário Coluna é penúltimo mas entrou no ranking, sinal de que a memória dos jornalistas ingleses não é curta. É claro que se nota a ausência de um certo português entre os eleitos, sem que exista, no entanto, qualquer “levantamento” nacional a esse respeito. Pela minha parte, garanto que a omissão me dá imensa vontade de rir… Grande “FourFourTwo”! E agora, banho comigo, que a digestão da bola de berlim está feita e a ventania seguiu o exemplo de Sérgio Conceição – e acalmou.

Outra vez segunda-feira, Record, 31JUL17

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