Uma grande crónica de Daniel Oliveira

Com a devida vénia, a seguir reproduzo o texto assinado por Daniel Oliveira, na sua coluna Verde na bola, e publicado na última página da edição impressa de Record de hoje.

Cair do pedestal

Diz-se de José Mourinho que ou se ama ou se odeia. Pois eu não o amo seguramente. Não gosto da sua arrogância calculista e dos seus modos de menino prodígio. Se é para ser malcriado, prefiro o “que lo chupen e que lo sigan chupando” do grande Maradona. E também não sou fã do futebol de Mourinho. É  excelente para os adeptos e para quem gosta de xadrez. Pouco excitante para quem prefere bailado. Se Mourinho se dedicasse à patinagem rebentava a escala na nota técnica, mas não chegaria à mediania na nota artística.

No entanto, e a sangrar-me o coração, reconheço o óbvio: Mourinho é um génio. Se não fosse um génio seria, porventura, a figura mais detestável que o futebol já conheceu. E só se pode ser tão insuportável quando se consegue chegar, ver e vencer. Não é difícil imaginar que isso voltará a acontecer naquele armazém de estrelas que é o Real Madrid. Não sei é se o Santiago Barnabéu aguenta o peso de tantos egos.

Dito isto, estou ansioso por ver Mourinho no campeonato espanhol. Não sinto nenhuma afinidade patriótica com o treinador. O próprio não a alimenta. E se o Sporting é o meu compromisso, o Barcelona é a minha escolha. Sendo que a classe de Pep Guardiola e a convicção romântica que tem no seu futebol contrastam com a fanfarronice e o cinismo táctico de Mourinho. Terei assim mais uma razão para torcer pelo meu Barça. Não levem a mal: homens que escolhem ser amados ou odiados têm de estar preparados para saber que há quem os queira ver cair do seu pedestal. Humildemente reconheço a minha mesquinhez. Não é bonito, eu sei. Mas quem disse que as paixões da bola são feitas apenas de bons sentimentos?

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