A Seleção vai inexplicavelmente no rumo certo

“In illo tempore”, viviam ainda os professores na ilusão da terra onde escorria o leite e o mel, era a estrelinha de António Costa que empalidecia, com os Kamov avariados, as capoeiras por restaurar, a pressão dos lóbis a exigir mais meios, enfim o verão bombeiral a ameaçar deixar tudo descalço outra vez. Mas a entrada em parafuso do presidente do Sporting aspirou o interesse dos média e as emoções da canalha com a gula com que o papel mataborrão absorve a tinta – e Costa refugiou-se no limbo. Encravado, Jaime Marta Soares pediu licença aos soldados da paz para se dedicar em “full time” às ignições que, dia após dia, surgiam em Alvalade. Debaixo de fogo, Bruno de Carvalho apagava as chamas com gasolina e a tragédia propagava-se. E mil painéis de comentadores, em sessões contínuas, formavam a imensa cortina de fumo pelo meio da qual Rui Rio e Assunção Cristas tentavam, em desespero, o antes fácil: atribuir a Costa os males da Pátria.

Até ao Portugal-Espanha de sexta-feira, a vida pesava ao líder do que resta do Conselho Diretivo do Sporting, apesar das boas notícias que sempre lhe chegavam da canhestra atuação da Comissão de Gestão, da desconfiança que ela igualmente gerava e do desgaste do seu promotor. E ou eu já não percebo nada disto, hipótese bem provável, ou no sábado iremos ter bombeiros de piquete ao leão vítimas de fogo amigo.

A verdade é que se Costa quase desapareceu, a crise do Sporting saiu também do centro do nosso pequeno mundo. Se o jogo contra a Espanha e os três golos milagrosos de Cristiano tinham arrastado os projetores de Alvalade para Kratovo, agora, após a desenxabida, desmotivante e “inexplicável” (engenheiro Santos dixit) exibição da Seleção frente a Marrocos, Bruno de Carvalho pode respirar fundo. É que o debate intenso – entre os mesmos comentadores que ainda há pouco só pareciam doutorados em Sporting – sobre o sub-rendimento da nossa rapaziada na Rússia promete continuar para além da fase de grupos, pois entre o génio de Cristiano, a segurança de Rui Patrício e a vaca leiteira que trouxemos do Europeu encontramos a base que chegará para nos garantir ao menos os oitavos de final.

A matéria em análise é vasta e vai de uma defesa instável a um meio campo sonolento, passando por um ataque que tem jogadores jovens e talentosos a atuar fora do seu sítio, incapazes de ganhar no um contra um, de dar seguimento a uma jogada ou de fazer um rematezinho que seja à baliza. Afinal, o costume. Somos candidatos e mais: vamos no rumo certo.

Contracrónica, Record, 21JUN18

 

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