Se respondermos aos livros eles passam a existir

Muitos meses atrás, fui procurado por um velho companheiro de redação que andava a escrever – mais de 40 anos depois… – um livro sobre o “25 de novembro”. Depressa me apercebi que o propósito do autor não era outro do que atirar a culpa pelo fracasso dos seus ex-correligionários – branqueando-o ao mesmo tempo – para cima daqueles que se opuseram ao golpe militar. E, no meu caso, inventando até benefícios que não tive, pois era, em 1975, antes do “golpe”, diretor de informação da rádio oficial, tendo sido “reestruturado” em diretor adjunto pelos artistas que fugiram na altura dos factos e que entretanto recuperaram um lugar à mesa. O objetivo dessa obra era de tal modo parcial que foi apenas promovida, em breves minutos e pelos amigalhaços, num programa da RTP, e numa longa (!) entrevista ao autor – que parecia ser igualmente quem fazia as perguntas – numa publicação que vendia dois mil exemplares em banca.

Vou buscar esta história que pouco interessará ao leitor para a comparar com a do recém-publicado livro do ex-presidente do Sporting, cujo óbvio interesse é glorificar o que fez, armar-se em vítima e acertar contas com os que o derrubaram. Nada de extraordinário, não foi o primeiro, nem será o último a recorrer ao expediente. Mas a culpa está no acolhimento da comunicação social – como sublinhou Joana Amaral Dias, no “Correio da Manhã”. Já enquanto líder leonino, o coautor deu cabo da vida dele e do clube por ter entrado num círculo vicioso de divergências com jornalistas e comentadores: respondia violentamente à opinião emitida por um qualquer “quase anónimo” – e os jornais metiam-lhe as palavras numa caixa de ressonância que nem o tema nem os intervenientes justificavam.

Esse problema foi agora recuperado pelos média de uma maneira absurda – o diz que disse dará assim tantas audiências, somará assim tantas “pageviews”, venderá assim tantos jornais? É bem provável. Certo é que mal se deu a notícia de que Frederico Varandas daria uma conferência de imprensa, logo se badalou, ao lado, que o antecessor lhe iria responder de pronto, ou seja, mais importante do que aquilo que diria o atual presidente era o contraditório que viria a seguir. Não somos caso único, os meios de informação em Espanha adotam estratégia idêntica.

Se usasse chapéu, tirava-o, sim, à engrenagem que continua a acolitar o antigo líder, que percebeu que com a nossa comunicação social basta um sinal de fumo para que os repórteres acorram em massa. Afinal, vivemos do que está a dar, seja certo ou errado. Mas o que me entristece nestas guerras fratricidas é que por este caminho o Sporting nunca mais terá descanso. E enquanto as diversas fações não compreenderem que só acabando com os insultos e puxando todas para o mesmo lado o seu clube terá hipóteses de retomar a grandeza dos velhos tempos, nada feito.

Porque não há inocentes na ala psiquiátrica. A intervenção do dr. Varandas foi, também ela, um desastre. É que sendo, quanto à forma, evidentes as dificuldades do comunicador, mais cuidado merecia o conteúdo. Ir para uma conferência de imprensa e adotar o tom de resposta a um livro que insiste num discurso em “curto circuito” – e cito de novo Joana Amaral Dias – é uma péssima ideia. Pior é acrescentar-lhe pormenores como os da degradação de colchões e mesas de cabeceira da Academia, que levam a conversa para o nível das vizinhas na escada. Ou esta gente pensa, e trava, ou estás tramado, Sporting.

Outra vez segunda-feira, Record, 25fev19

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