Rui Vitória é de novo uma besta

Longe de prever que viriam aí duas derrotas, referi aqui há uma semana o estranho modo como o Benfica resolveu, ou não resolveu, as lacunas criadas na baliza e no centro da defesa pela partida de Ederson e Lindelof. Hoje, o resultado da ligeireza com que se julgou ter esses problemas resolvidos está à vista de todos, incluindo à daqueles que enfrentam sempre as crises das suas equipas em estado de negação.

Não vou voltar uns anos atrás, aos tempos em que a intolerância generalizada garantia que Rui Vitória – porque é o treinador o eterno culpado das falhas próprias e das asneiras dos outros – não era técnico para o Benfica. Escrevi-o e não repetirei o erro, até porque se dissiparam entretanto as dúvidas sobre os méritos de Vitória, que depressa deixou de ser besta para passar a bestial, situação de que desfrutava ainda há 15 dias. Estou seguro de que ele será de novo capaz de ultrapassar a tempestade.

Como apontei na última crónica, Bruno Varela podia não estar ainda preparado para jogar a este nível – e a sua exibição no Bessa confirmou-o. Sobre as limitações físicas de Júlio César, que vai agora atuar na Taça da Liga, o passado recente fala por si e o futuro próximo depressa fará o mesmo. Isso quer dizer que se anuncia a estreia de Svilar, o talento belga de 18 anos que dificilmente terá condições para “pegar de estaca” na equipa principal. E aí teremos Rui Vitória enredado num problema grave, gravíssimo, insolúvel até janeiro e que faz regressar à Luz o pesadelo de Moretto. Como se compreende que uma estrutura tão profissional e com provas dadas tenha caído numa armadilha tão evidente? Mas a crise dos encarnados, se passa muito pela intranquilidade que emana da baliza, onde um guarda-redes com potencial é imolado, não é também alheia à má forma de Pizzi – e a boa não regressará por certo com Filipe Augusto ao lado.

Fecho esta dissertação sobre o momento benfiquista vestindo uma camisola que não é a minha para manifestar tristeza pela saída de Nuno Gomes, referência do futebol e do emblema da águia, a quem daqui saúdo com admiração. Em simultâneo, espero que não se confirme a entrada de um mercenário intriguista conhecido pela porcaria que espalhou em todos os clubes que lhe deram guarida.

O parágrafo final é hoje dirigido à decisão da Liga de marcar jogos para 1 de outubro, dia das eleições autárquicas. Discordo de quem defende que o Governo deve impedir por decreto a repetição da situação e sou contra a obrigatoriedade do voto. A ida às urnas é um ato de cidadania, pelo que ou aprofundamos essa cidadania ou a abstenção será cada vez maior. Mas lamento que na Liga não houvesse o bom senso de evitar que uma normal marcação de jogos, para mais num calendário apertado, surgisse como um gesto deliberado de prejudicar a base do regime democrático – que é o poder da escolha popular.

Outra vez segunda-feira, Record, 18SET17

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