Ricardo Ribeiro, o fadista especial

De vez em quando, quem vive da música em Portugal descobre um alegado talento que logo impinge a canais de TV, rádios e sites, ao que resta da imprensa e agora também às redes sociais.

Pior do que a encomenda, só o raciocínio enviesado dos “artistas”, que nos massacram com considerações filosóficas de sua pobre autoria. Jornalistas e comunicadores enfiam, claro, os barretes. Não é destes tempos, é de sempre. Não me esqueço da campanha de há 50 anos, paga por um empresário das tintas que financiava a carreira da mulher, que cantava horrores e de quem todos nos ríamos – pelas costas, que então o dinheiro toldava mais as consciências.

Tudo isto a propósito do fenómeno Ricardo Ribeiro, um ex-obeso que esta semana andou pelos média a promover o álbum “Respeitosa Mente”. A diferença é que nada do que refiro atrás se lhe aplica: canta divinalmente, ao seu trabalho não falta qualidade e no que diz – tantas vezes em resposta a perguntas tontas – revela sabedoria, equilíbrio e caráter. Como ele próprio sublinha, é discípulo, na música e na vida, do grande Fernando Maurício, o que explica muita coisa. Conselho: ouçam “O sítio” mas não digam “ah, fadista!” porque ele e o piano dizem que não é fado.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 4mai19

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