Rafa e Samaris já não são pesos mortos

Andava no ar uma nuvem que parecia cinzenta. Com tantos êxitos sucessivos, o mais natural seria que o Benfica baqueasse no Dragão. Mas os deuses gostam pouco de cálculos de probabilidades e o FC Porto perdeu. Ficou tudo dito sobre o jogo e foram tecidas todas as loas a Bruno Lage. Faço, assim, a abordagem por outro lado: admiro o homem pela maneira como recupera jogadores, para mim uma das qualidades mais admiráveis que um treinador pode ter.

Porque não basta ir buscar jovens à equipa B, e ter sucesso na aposta, é preciso não deixar desvalorizar os ativos, há que defender o negócio. Estou, por exemplo, a lembrar-me de Rafa, perdido no banco como mais um peso morto e que mostra de novo a excelência do seu jogo – até já é considerado ponta de lança e o golo da vitória de sábado bem o comprova. Mas o caso mais paradigmático é, talvez, o de Samaris, suplente eterno de Fejsa e cujos dias para abandonar a Luz muitos contavam como se o salário lhes saísse do bolso. E trata-se, contudo, de um futebolista polivalente, de um integrante regular da seleção grega, de um profissional a tempo inteiro, de um líder do balneário, de um grego que fala português, de uma referência como o Benfica já tem poucas – e como Rui Vitória deve estar hoje arrependido de ter afastado Luisão em vez de o transformar num aliado…

Aliás, mérito semelhante foi aqui dado Sérgio Conceição, que foi campeão recuperando o que Nuno Espírito Santo não quis, e chega citar Herrera, Brahimi e Corona para se entender o absurdo da destruição de ativos só porque o treinador não gosta do cheiro do aftershave. O que Sérgio faz agora com outro desprezado, o espanhol Adrián López, é um novo atestado da sua capacidade como técnico e condutor de homens. E melhor será se conseguir evitar atitudes feias como a que teve negando o cumprimento a João Félix – comportamento chocante até porque Luís Gonçalves e Bruno Lage, ali mesmo ao lado, se abraçavam com paixão.

Mas se Lage e Sérgio são casos de sucesso como gestores de recursos humanos, temos em Madrid o exemplo contrário. A 12 pontos do Barcelona na liga e eliminado da Taça, o Real permite ao treinador, Santiago Solari, a liquidação total do plantel, em nome de uma renovação que tape os erros do argentino e de Florentino Pérez. Afastar Isco, humilhar Marcelo, sentar Kroos ou insistir em que Bale mostre a sua decadência, faz com que o valor dos expostos à desgraça caia a pique. Para tapar o sol com a peneira, dizem que… falta a Champions. Ui! Deixem passar o Ajax e esperem pela pancada com o senhor que se segue…

O último parágrafo é hoje dedicado a três monstros do desporto mundial. O primeiro é uma das maiores atletas de sempre dos chamados “desportos de inverno”: a norueguesa Teresa Johaug. Após dois anos de suspensão – por ter usado um baton contra o cieiro que continha uma substância proibida – a já pluricampeã de esqui de fundo, de 30 anos, somou agora, nos Mundiais da Áustria, mais três medalhas de ouro às sete que já detinha. O segundo é o lendário Roger Federer, que conquistou, no Dubai, aos 37 anos, o centésimo título ATP da carreira, depois de derrotar na final uma das rutilantes promessas do ténis, o grego Tsitsipas, 17 anos mais novo. O outro atleta global é o nosso Nelson Évora, que no Europeu de pista coberta saltou mais de 17 metros e obteve a medalha de prata. Não repetiu o ouro de 2015 e 2017, mas com mais esta proeza – e quase aos 35 anos – merece bem aqui ficar junto de Johaug e de Federer. Chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 4mar19

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