Que não se repitam hoje os erros de sexta-feira!

O esgoto das redes sociais agitou-se com o empate de sexta-feira da Seleção e prepara-se para nova descarga intestinal esta noite, se lho permitirem. Não creio que isso aconteça.

A exibição frente à Ucrânia foi, de facto, dececionante. E se não faltou empenho, transbordou sobranceria: mais minuto, menos minuto, a bola acabaria por entrar. O excesso de confiança, velha pecha das grandes equipas, tem vindo a ser cultivado por profissionais da escrita e comentadores de TV fiéis ao politicamente correto, que incensam os jogadores como se deles dependesse a vida. Atente-se no que se tem dito sobre João Félix, quando o benfiquista promete apenas alcançar um patamar a que ainda não chegou. Escrever ou dizer maravilhas sobre os filhos da nação futebolística tornou-se moda. Só que a realidade vem a seguir: os nomes nas camisolas não vencem os desafios.

Compreende-se alguma euforia. De fora da convocatória de 25, de Fernando Santos, ficaram, entre outros, estes 15:  Anthony Lopes, Cédric, Bruno Alves, Luís Neto, Rolando, Antunes, Ricardo Pereira, André Gomes, Adrien, Renato Sanches, Manuel Fernandes, Rony Lopes, Gelson, Éder e Quaresma. E uma seleção que não precisa desta tropa tem de ser muito forte. É-o, sem dúvida, a título individual, o que levaria o selecionador a poder apresentar hoje, se o entendesse, um onze bastante diferente do que defrontou a Ucrânia, sem prejuízo da qualidade.

Nunca é de mais lembrar o caso da falta de laterais de há poucos anos – Scolari teve de recorrer a Duda, lembram-se? – e de como dessa angústia nasceu a aurora da abundância: Nelson Semedo, João Cancelo, Cédric, Vieirinha, Ricardo Pereira, Raphael Guerreiro, Mário Rui, Antunes e…  André Almeida! A questão não está no valor dos jogadores mas na sua capacidade de criar problemas ao adversário, algo que não fizeram na sexta-feira.

A Ucrânia fez na Luz, o que poderá vir a fazer a Sérvia. Ciente da superioridade portuguesa, meteu o “autocarro”, que mais havia a esperar? A isso respondeu a Seleção com a lateralização sistemática do jogo e a ausência quase total de remates. Só com a entrada de Rafa, homem de transições rápidas, lográmos melhorar, mas a indolência geral permitia a reposição dos ucranianos à frente da sua baliza. E esse foi um erro que não poderemos repetir, sendo também certo que no contra-ataque a Sérvia é mais perigosa, o que nos vai obrigar a ser rápidos, intensos e a marcar – e cedo melhor que tarde.

Não termino sem referir duas dúvidas levantadas nas redes sociais, das raras sem insultos ou palavrões. Uma tem lógica: faz sentido utilizar William Carvalho como “8”, a exemplo do que acontece no Bétis, beneficiando da qualidade do seu passe mas pagando-a com a lentidão, e colocando Rúben Neves a “6”, afastando-o da zona em que pode aplicar o remate de meia-distância? A outra dúvida é quase um atentado aos costumes replicá-la aqui: após o êxito do Euro de 2016, não estará Fernando Santos “amarrado” à FPF até à eternidade, travando-se assim a evolução da Seleção? Concordo com a crítica da primeira dúvida, discordo da segunda. O engenheiro provou que não é apenas mais um, ponto.

O último parágrafo vai para cada um dos idiotas que assobiavam a seleção ucraniana mal ela recuperava a bola e ouvia os aplausos dos seus adeptos. O que levará alguém a vaiar a equipa nacional de um país amigo, que foi sempre correta em campo e cujos apoiantes são, eles próprios, em larga maioria, exemplos de saudável convívio e fácil adaptação ao país que os acolheu?

Outra vez segunda-feira, Record, 25mar19

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