Poderá Cristiano imitar Federer?

O envelhecimento pode ser interessante sob alguns aspetos, mas a idade não perdoa. Para mais, a sociedade mudou e estão mortos os que defendiam a velha máxima do funcionalismo público que dizia que a antiguidade no serviço era um posto, ou seja, os últimos a chegar que vergassem a mola.

Longe de ser velho, os 33 anos que Cristiano Ronaldo completará dentro de duas semanas impõem-lhe novos limites. O seu trabalho em Madrid, nomeadamente o facto de apontar menos golos, é visto de forma pesada, ignorando-se o facto de não ser possível a um jogador marcar largas dezenas de golos por ano, até à eternidade. Mas a vida é o que é e CR7 terá de enfrentar o problema. Os prémios individuais terão ficado definitivamente para trás e o futuro trará notícias duras a que não está habituado e com as quais sentirá dificuldade em lidar. Vai precisar de aprender.

Vejamos o caso de Roger Federer, que procura, aos 36 anos, no Open da Austrália, alcançar o seu 20.º título do Grande Slam. Para isso, o que fez o suíço, após vários anos de penumbra e quando os seus feitos de vulto pareciam terminados? Reviu a preparação, refez a agenda – passando a disputar menos torneios e conseguindo assim recuperar a melhor a condição física – e retomou o nível exibicional que fez e faz dele talvez o maior tenista de sempre. Infelizmente para Cristiano, o futebol não permite um rendimento individual adequado à idade.

Outro exemplo claro do desgaste provocado pelo calendário é o do biatleta norueguês Ole Einar Bjørndalen, que a dias de festejar o 44.º aniversário se vê afastado dos Jogos Olímpicos de inverno, falhando com isso a que seria a sétima (!) presença numa Olimpíada. Com 13 medalhas, duas delas alcançadas nos JO de 2014 (aos 40 anos!), Bjørndalen corre o risco de ser ultrapassado pela compatriota Marit Bjørgen, de 37 anos – esquiadora de fundo com 10 medalhas olímpicas –, como o mais laureado atleta em Jogos de inverno e um dos terceiros da história, a seguir a Michael Phelps e à desaparecida ginasta russa Larissa Latynina. E porque tem Bjørndalen este penoso final de carreira? Porque não quis retirar-se após os Jogos de 2014, prometendo então parar de vez a seguir ao Mundial de Biatlo de 2016, na Noruega, onde ganhou mais quatro medalhas… aos 42 anos. Mas deslumbrado com a “imortalidade”, resolveu continuar, desafiando a marcha inexorável do tempo que transformou a inacreditável velocidade com que “voava” sobre a neve na atual marcha de tartaruga que faz com que do grande campeão – 48 medalhas em mundiais! – só reste a sua lenda.

Queira Cristiano ou não, no Real Madrid não terá a tolerância que foi recusada a Raúl. Não verá aumentado o salário e será cada vez mais alvo de críticas dos jornalistas, de perseguições fiscais e de assobios dos adeptos. Tudo por pretender prolongar o percurso futebolístico até aos 41 anos, recreando-se num clube que lhe exigirá, sempre, 50 golos por época. Que atente no erro de Bjørndalen e imite Federer, se descobrir o caminho. Divertir-se-ia mais e seria mais feliz.

Outra vez segunda-feira, Record, 22JAN18

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