Peseiro, Jesus e o trio maravilha

Na escola, o professor faz uma pergunta de algibeira ao Tonecas: duas equipas de futebol defrontam-se, uma delas atira duas bolas aos ferros da baliza adversária e a outra não atira nenhuma; qual dessas equipas é treinada por José Peseiro? O menino sorri de alívio, essa ele sabe.

Lamúrias. O certo é que se no remate de Herrera ao poste, logo no início do jogo, a bola tivesse entrado, os portistas adiantar-se-iam no marcador. E se a “bomba” que Sérgio Oliveira lançou à barra desse em golo, restabeleceria o empate na melhor fase do FC Porto. É a velha questão dos “ses”, que não contam, no caso com um pormenor relevante: as bolas que batem em traves e postes ficam tão perto de ir para dentro da baliza como de seguir para fora. E sendo tudo verdade, o que vale é que Peseiro continua a justificar a sua fama de pé frio. Primeiro, foram erros de arbitragem em quatro partidas – logo em quatro! – que impedem os azuis e brancos de estarem ainda a discutir o título. Agora, tinha de vir o azar com os ferros – e também a infelicidade de Casillas no lance do 1-3 – para que o treinador de Coruche pudesse defender tese numa das áreas técnicas que melhor domina: a das lamúrias, “ante” e “post bellum”.

Cobra. Entrando no campo das realidades, diria que o FC Porto baqueou pelas más opções de Peseiro na defesa. No primeiro golo do Sporting, João Mário passou como por manteiga por José Ángel – um anjinho que leva, em confronto futebolístico, 10 a zero de Miguel Layún, sentado de castigo no banco – e depois Slimani adiantou-se no mínimo seis metros ao tenro Chidozie. No segundo golo, foi Martins Indi, irreconhecível, a ver a bola sobrevoá-lo, pés no chão e olhos no argelino, essa cobra que serpenteava como queria por entre a dupla central portista.

Altura. Ao contrário, Jorge Jesus gastou meia época a fazer dos centrais – e dos laterais – peças de xadrez, que mudou até acertar. Por onde andam os antes tão importantes Naldo e Ewerton? E Tobias Figueiredo? E Paulo Oliveira, que parecia ir a caminho da Seleção e entrou agora só para queimar tempo? O quarteto defensivo leonino do Dragão, mais William, tem uma média de alturas a rondar 1 metro e 89. Seguramente que não é por acaso.

Dr. Careca. O Sporting ganhou porque jogou bem e foi eficaz, enquanto o FC Porto, que teve já períodos altos de que seria incapaz há dois meses, vive em apagada e vil tristeza. Basta ver como “desapareceu” até o seu doutor careca, um sempre em pé prà festa, ou como tudo meteu ontem no bolso, a partir do banco dos leões, o trio maravilha: o sábio Octávio, o querido líder e o (que faz de) macaco de imitação. Toda uma ciência.

Contracrónica, Record, 1MAI16

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