Paisagem paradisíaca, petróleo puro – e o diabo que vem aí

As imagens dos incêndios perto de Atenas falavam por si: as ignições multiplicavam-se como se uma força demoníaca as espalhasse. E confirmavam a tese de que quando a Natureza se enfurece, no caso o calor e o vento, o homem é demasiado pequeno.

Claro que os focos iniciais podem ter resultado de mão criminosa, como anunciou o governo grego para sacudir responsabilidades no desordenamento do território, na fragilidade da prevenção, na falta de bocas de incêndio, na proliferação de casas ilegais e na ineficácia da resposta ao caos – lá como cá. Mas que interessa se o fogo nasceu de forma propositada ou fortuita perante o horror das consequências?

Na hora da desgraça somam-se as acusações e persegue-se a utopia da exigência de um bombeiro de agulheta na mão junto de cada edifício, mal se dê a ignição. Como se não tivéssemos visto imagens anteriores à tragédia que nos mostravam centenas de moradias embrulhadas no arvoredo – paisagem paradisíaca, petróleo puro.

O mais preocupante agora não são os gregos, mas os portugueses que continuam, como o CM tem sublinhado, com terrenos por limpar e casas encostadas às árvores – e rodeadas de entulho. Não se iludam: o diabo em chamas nunca falha. Atrasou-se mas vem aí.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 28JUL18

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