Os dois golpes de asa do engenheiro

Mal se conheceu o onze de Portugal, logo se fizeram ouvir reticências às duas alterações promovidas por Fernando Santos. Se desse para o torto, a melhor carpideira é a que pega primeiro ao serviço…

Houve, por exemplo, quem dissesse que para o lugar de João Félix o engenheiro tosco devia ter optado por Rafa e não por Gonçalo Guedes. A justificação para a escolha, que podia ter sido e não foi, era antológica: porque Rafa daria maior velocidade à equipa! De facto, um dos piores defeitos de Guedes é a lentidão… Por essas e por outras é que Paulo Futre aconselhava, na CMTV, que Félix não lesse nem ouvisse nada a seguir à sua frágil atuação frente à Suíça.

Ora o que sucedeu foi precisamente o contrário da previsão dos bruxos. A entrada de Gonçalo Guedes, pelo que jogou – e correu! – e pela capacidade de executar o remate vitorioso, sem estar enquadrado com a bola, foi tão decisiva para o êxito português como a chamada a titular de Danilo, que “encostou” William à pérola holandesa, Frenkie de Jong. Claro que, no final, o selecionador passou de tosco a genial, incensado por todos os abutres da bola, mesmo pelos que sentiram os seus dois golpes na asa.

Mas se a crítica nem sempre foi injusta quando apontou exibições menores à Seleção, ontem não só o desempenho coletivo foi excelente, como a nível individual resultam, dos dois desafios, algumas notas. A primeira vai para Nelson Semedo, que “explicou” os motivos que levam o Barcelona a querer mantê-lo, apesar da escassa utilização que lhe dá Valverde. A segunda destaca as duas preciosas assistências de Bernardo Silva, que confirmam apenas a dimensão do seu génio futebolístico – e vão cinco títulos coletivos e dois individuais esta época! A terceira nota pertence a Rúben Dias e a Bruno Fernandes, que se já eram alvo da cobiça de grandes emblemas europeus, viram reforçado o seu valor financeiro. E a quarta justificou-a Cristiano, cada vez mais líder e mais jogador de equipa – sem perder a capacidade de abrir a porta caso desapareça a chave.

Mas há um derradeiro sublinhado individual, uma palavra que merece João Félix. Não foi feliz na estreia – e viu-se atirado uma segunda vez para o esquecimento quando o seu substituto bateu Cillessen – e poderá até ser agora mais complicado que algum clube “bata” os 120 milhões que o Benfica exige. A verdade é que o seu talento não se esfumou e que este percalço deve ser aproveitado por ele para crescer e ser ainda melhor amanhã. Tem 19 anos, o futuro pertence-lhe.

De audiências, percebo zero. Por isso, interrogo-me: o que levará os canais de televisão a ouvir, na rua e durante horas, desqualificados antes dos jogos e bêbados depois, que vomitam as maiores enormidades e palavrões avulsos como resposta às perguntas básicas dos infelizes repórteres? Há todo um mundo novo que felizmente me ultrapassa.

O parágrafo final vai para Thiem, Zverev, Tsitsipas e Khachanov: terão de esperar. A 12. ª vitória de Rafael Nadal em Roland Garros – e também a 18.ª do tenista balear nos grandes torneios, o que o deixa apenas a duas de Roger Federer – confirmou o domínio do “big three” sobre a “nextgen”. Rafa, Roger e Nole conquistaram os 10 últimos títulos do Grand Slam – e 49 em 57 desde 2005! – e chegarão a Wimbledon numa forma que permitirá a um deles voltar a vencer. Mas atenção: ontem, Dominic Thiem já ganhou um “set” a Nadal e desperdiçou a seguir alguns pontos de “break”. O fim do ciclo tarda mas é inevitável…

Outra vez segunda-feira, Record, 10jun19

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