O regresso da amargura

Não vejo a política com palas nos olhos e recorro a uma visão periférica para concluir que Cavaco Silva foi um bom primeiro-ministro e um razoável Presidente, dadas as circunstâncias.
Estive em Belém quando ele condecorou Artur Agostinho, em 2008, e tive oportunidade de salientar, e de agradecer, no Record, o sentido de justiça desse gesto. Cavaco deu a Portugal, ao longo de décadas, o melhor que soube e pôde – é essa a minha apreciação individual, que inclui uma admiração que pensei ser para o resto da vida.
Foi por isso com surpresa, e alguma desilusão, que ouvi agora partes da sua intervenção na universidade de verão do PSD, num regresso marcado pela révanche e pela partidarite, eu que o julgava já um senador da República, acima da querela menor em que se enreda boa parte da nossa classe política. E o pior de tudo é que a possível razão das suas críticas se esfumou no emaranhado de diretas, indiretas e pios – que falta de gosto! – que distribuiu como um ancião amargurado com as brincadeiras das crianças.
O PSD encontrou, enfim, um novo líder – a quem logo avidamente se agarrou –, mas Cavaco, neste registo, recupera apenas o penoso final do seu tempo em Belém. Merecia melhor: ele e nós, que não podemos dispensar quem, errando e acertando, serviu o País – e não roubou.
Observador, Sábado, 7SET17

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