O Benfica ganhou porque a vida são os momentos

O resultado justo para o dérbi seria o 1-1 que apostei no TotoRecord, mas a vida, além de injusta, é feita de momentos. Em Alvalade, tudo começou com um, aos 20 minutos, e terminou com outro, aos 72. Começou com o golo do Benfica, na sequência do ressalto da bola em William, com Ewerton a adiantar-se temerariamente e Coates a recuperar do nó cego que levou de Jonas. E terminou com o não-golo do Sporting, quando o excelente Bryan Ruiz não conseguiu empurrar para a baliza escancarada o cruzamento milimétrico de Slimani.

Jonas e CR7. Poucas coisas na vida mudam tão depressa como o futebol. Veja-se como ainda ontem de manhã Jonas liderava a candidatura desta época à Bota de Ouro, com 26 golos, à frente de Higuaín e de Luis Suárez, que tinham 25. Cristiano Ronaldo parecia fora da luta, “apenas” com 23. Pois bastaram algumas horas para que CR7 – que marcou quatro golos em 26 minutos – passasse a somar 27 e a comandar a reformulada lista dos goleadores europeus. Higuaín chegou entretanto aos 26, falta saber como se sairá hoje Suárez no País Basco. Se calhar, o uruguaio vira tudo outra vez.

Bolas lá dentro. Mas o que mudou verdadeiramente por cá foi a sorte do jogo psicológico em que os que se julgam mais espertos detinham a absoluta certeza de vencer os que julgam mais estúpidos. Concretizando. A substituição de treinador e a saída de jogadores nucleares deixaram o Benfica sob forte tempestade, com Rui Vitória a carregar sobre as costas – perante o nariz torcido de adeptos e comentadores, e aqui está um – a obrigação de fazer com que a chuva parasse. Já em Alvalade, o sol brilhou com a aparição de Jesus, até ontem, pelo menos, ovacionado sem reservas: por ganhar, por falar ou simplesmente por existir. A consequência está à vista: os encarnados uniram-se, com talento e competência, em torno do que se dizia ser a sua desgraça, enquanto os leões, levados em ombros pela euforia coletiva, entendem agora que, apesar do talento e da competência que também têm, o percurso para os títulos – ou o título porque já só resta um – será bem mais duro do que se ouvia na cantilena da superioridade suprema. Não ganha quem grita mais alto, quem atira mais pedras, quem diz que é melhor ou que sabe mais. No futebol, é preciso ir para o campo e meter as bolas lá dentro.

Mais dois. Talvez por isso, a transmissão televisiva – ou o realizador com vocação jornalística? – ofereceu-nos, além dos que foram decisivos, mais dois momentos cativantes. Um, que podemos considerar já um clássico do futebol português, foi aquele em que Jorge Jesus descompôs, com chocante enxovalho, o seu fiel escudeiro, Raul José. A desculpa da descarga de adrenalina permanente, no banco, é capaz de ser insuficiente. O outro momento, mesmo sobre o final da partida, foi o que mostrou ao País o rosto desgostoso do presidente leonino, um homem bom na dialética, forte no confronto, excessivo na provocação, exultante na vitória, mas que acusa demasiado a frustração na hora do insucesso. A desculpa da simples antevisão do futuro, caso o Sporting não consiga conquistar o campeonato, é capaz de ser suficiente.

Contracrónica, Record, 6MAR16

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