Mensagem de Jorge Sampaio a Record

Leio jornais desportivos desde sempre… Não foram nem são os mesmos, vou alternando, vejo os títulos. O que é que verdadeiramente me interessa?

O futebol, só e mais nada. Não me detenho nas vicissitudes ou nas omissões da orgânica – as associações, as federações, as ligas, cá dentro ou lá fora. Em dia de aniversário, nada disso se celebra. Limito-me a dizer que deveria ser diferente, obviamente para melhor.

Do que gosto é de futebol. Do que se joga, qual a estratégia e a  tática, o que são os cidadãos jogadores (digo as duas palavras). Como muitos portugueses, sei – julgo – analisar talentos. Há testemunhos disso. Não me tenho enganado, infelizmente no caso do meu clube.

Para usar a velha imagem do meu amigo João Cravinho, o que é preciso, nos jornais desportivos, é ler a “doutrina”, deixar de lado a intriga, o boato, as disponibilidades agenciadas, sem qualquer pudor, pelos que usufruem dos talentos dos outros.

No Record, companheiro de tantos momentos, começo por ler a segunda página – a tal doutrina; vou depois à última – em especial o Daniel Oliveira, lúcido cidadão das minhas cores “clubísticas” e que, como deve ser, não poupa ninguém; a seguir, procuro para ver se o Diretor escreveu  porque gosto muito de o ler – tem a vida por ele e o currículo, coisa que sempre ajuda.

O futebol deu-me belos momentos de vida, deixo de lado os desaires… Quando exercia cargos públicos nacionais, “saber” alguma coisa de futebol ajudou-me sempre muito por esse país fora: para começar uma conversa, ouvir uma crítica simpática, passar depois a coisas mais substantivas. O futebol do Vítor Santos, do Carlos Pinhão, do Aurélio Márcio ou do Cândido de Oliveira foi uma grande escola de civismo nos tempos de chumbo.

Hoje, os tempos são outros, com o seu lote de novos desafios. O futebol tornou-se uma poderosa indústria mundial com uma gigantesca componente financeira.

Os próximos anos mostrarão como é que os organismos dirigentes (mundiais, regionais e locais) e os métodos empregues para regular o jogo, serão capazes de introduzir as reformas necessárias à sua vitalidade e honestidade. O Record vai ajudar nisto, estou convicto.

Bom aniversário!

Jorge Sampaio

Publicado na edição comemorativa do 60.º aniversário de “Record”, a 26 Novembro 2009

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