Jorge Jesus e Luisão: duas entrevistas marcantes

Os que têm juízo aforram o mais possível, sabendo que a inatividade é certa: nos jogadores, uma carreira normal acaba entre os 33 e os 35 anos, nos treinadores médios trabalha-se hoje mas amanhã não se sabe. É, assim, natural que os profissionais do futebol sejam uma espécie de gente estranha, geralmente desconfiada e fechada no seu casulo de incerteza permanente. Ainda que a internet e as redes sociais, que mudaram a vida de todos os dias – e as mulheres, as “esposas” de ontem, justiça se lhes faça! –, tenham alterado também o paradigma do secretismo no mundo da bola, a timidez mantém-se e os protagonistas pouco se deixam conhecer fora dos estádios e do seu círculo restrito. Foi por isso muito bom ler a entrevista de Luisão ao “Expresso”, e ver e ouvir Jorge Jesus na 400.ª edição do “Alta definição”, da SIC, já que pudemos navegar pela “face oculta da Lua” de dois nomes marcantes do futebol português.

Sinto admiração por ambos e pelo brasileiro desde os tempos em que começou a impor-se no balneário, o que levou Record a classificá-lo, numa manchete, de “capitão sem braçadeira” – para desespero de outro suposto candidato. O percurso de Luisão na Luz confirmou, aliás, o seu carisma e a sua inteligência, além de um profissionalismo que o projetou para o patamar onde, quase aos 37 anos, ainda se encontra. Agora, a revelação da próxima vinda dos pais para Lisboa e a decisão de aqui continuar a viver depois de pendurar as botas – ao contrário de tantos compatriotas para os quais Portugal é apenas um ponto de passagem – mostram outra caraterística relevante da personalidade de Luisão: a gratidão. O amor pelo país que o acolheu, e pelo emblema que tudo lhe proporcionou, completa o seu perfil e traça, em definitivo, o seu caráter.

Quanto a Jorge Jesus, Daniel Oliveira arrancou-lhe o que faltava descobrir: os sentimentos mais profundos de uma pessoa diferente e sensível, de um homem de família que não gosta de sair de casa, de um filho da Amadora que vive na Outra Banda e que falhou rotundamente como “professor de Português” para vencer e se consagrar na arte do futebol. Em breve o tratarão por Mestre, “acarditem”.

O parágrafo final vai para o Real Madrid e para Cristiano Ronaldo. Dos merengues, não há muito mais a dizer além de que jogam pouco e estão já a 10 pontos do Barcelona – e a 6 (!) do Valência, atenção. De Cristiano, basta recordar dois lances: um na primeira parte, em que parecia ir isolar-se e perde ao sprint para Juanfran, um rapaz da sua idade; e o outro, já perto do final do dérbi madrileno, quando descaído sobre a direita, livre de marcação e quase na cara de Oblak, falha o golo por lentidão excessiva na preparação do remate. Moral da história: não é, na verdade não podia ser, o jogador dos velhos tempos – a velocidade foi-se. Vai custar-lhe a admitir isso, mas é a vida.

Outra vez segunda-feira, Record, 20NOV17

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