Jogámos a passo, devagar e devagarinho, à espera do mesmo de sempre

A bola sobe fora do alcance do mais alto da barreira, Piqué, faz a barba a Busquets, que estica a cabeça em desespero sem lhe conseguir tocar e desce para a gaveta de De Gea, incapaz de reparar, com uma defesa impossível, o seu erro descomunal no segundo golo de Cristiano: e assim fez o capitão, ao cair do pano, o imerecido empate para Portugal.

Imerecido não é talvez o termo adequado porque no futebol não há justiça e os protagonistas é que contam, sejam 11 ou apenas um, como foi agora o caso, em Socchi. E tivesse o VAR sancionado a cotovelada de Diego Costa a Pepe – podia ter sido ao contrário mas por azar não foi… – e estaríamos agora, provavelmente, a celebrar a vitória de um homem contra uma equipa – uma das melhores do futebol mundial. Portanto, a espanholada brava que ontem nas redes sociais incensou Cristiano, colocando-lhe os méritos até acima dos da sua própria seleção, acabou por ser cruel para os outros jogadores portugueses, que classificou, de uma forma geral, como futebolistas vulgares que constituiriam uma equipa banal… se não tivesse Cristiano.

Já foi dessa forma – de empate em empate, lembram-se? – que nos tornámos campeões da Europa, embora há dois anos a Seleção não se apresentasse com tanta gente fora de forma: Cédric fez-nos recordar Nelson Semedo, José Fonte perdeu os rins e a titularidade, William Carvalho parecia ter ainda a cabeça em Alcochete, Bruno Fernandes e Gonçalo Guedes – este a perder ingloriamente o 2-0 que mudaria a história da partida – não estão maduros para a colheita, Bernardo Silva é um talento que teima em levar a bola para casa e João Mário transporta um sósia na expectativa da chegada do autêntico. E depois jogamos devagar e devagarinho, sem pressão sobre a bola, sem precisão nos passes, sem progressão no terreno, sem rigor nas marcações – o segundo golo de Espanha foi uma desgraça desnecessária. Há que melhorar tudo em cinco dias, ainda que a seguir venham os fulanos de Marrocos que são chatinhos e vão trazer o autocarro.

Seja como for, agarro a oportunidade de esquecer os 25 jogos sem perder de Fernando Santos, antes que morda a língua. E inspiro-me nas dezenas de espanhóis que no Twitter – e após o lance do penálti – desancaram Lopetegui, por não ter convocado Sergi Roberto, e Hierro, por ter preferido Nacho a Odriozola, e que meteram a viola no saco mal o madridista se redimiu com o golo da sua vida. Sabem por que é que a nossa seleção joga a passo? Porque o engenheiro não levou o Miguel Veloso. Incompetente!

Contracrónica, Record, 16JUN18

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