Há laranjeiras em Atenas

Duas das muitas histórias do novo livro de Leonor Xavier (via revista Sábado).

Ver, Ouvir, Imaginar

Procuro-a e não se revela esta primeira fase, entre aquelas tantas que seriam as primeiras, ou que se atropelam entre si para ser. Mesmo assim, dispenso a frase e mergulho em sensação de viagem, sobre este mundo e o outro, estas e outras pessoas, as de dentro e as de fora.

E eu própria, seguindo à toa e sem definido norte ou sul, enquanto me pergunto se vale a pena contar, e por fugazes momentos penso que sim, vale a pena. Acreditando numa espécie de missão que me foi dada, essa de dizer que não basta olhar, é preciso ver. Por assim dizer, eu entretenho-me a olhar e tenho cuidado a ouvir. (…). Reparo no que se passa à minha volta, guardo os pormenores, sem esforço já contei quantas senhoras estão sentadas naquela mesa reservada no restaurante japonês, de certeza são avós de muitos netos, vão ao cabeleireiro pintar o cabelo aloirado, vestem-se de bege e usam foulards de seda.

Acho que almoçam às terças-feiras, pela naturalidade com que as vejo continuarem conversas há pouco tempo suspensas, serão irmãs algumas, outras poderão conhecer-se desde pequenas, ou terão estudado no mesmo colégio.

E sem esforço também reparo numa outra mesa onde um pai almoça com dois filhos pequenos em luta com os sushis que querem levar à boca, quero saber se um dos meninos vai deixar o telemóvel esquecido no banco do restaurante.

Contentes por se acharem juntas, na mesa do canto estão três amigas e o filho de uma delas adormecido na cadeirinha de bebé. Uns namorados, ela de blazer, ele de gravata, segredam-se, parecem entendidos na onda da gastronomia portuguesa.

A vida está em todas estas desimportâncias. Com elas vou costurando o pensamento, e relembrando outras cenas, outras toadas de fala, outros costumes, outras cidades em outros países. (…).

 

Bom é Viver

Os netos perguntam-me sobre o amor e o mundo. Eu digo que sorte a vossa, conversar com a avó sobre o amor e o mundo. Fui na lua de mel a Madrid, ficámos na Gran Via e Madrid já era a cidade grande, a grande viagem. Eu casada, cabeça levantada a encarar o porteiro do hotel, andando por ali adiante até ao elevador de botões dourados, o marido atrás de mim, de chave do quarto na mão. Era assim ser-se casada.

Eu digo que sorte a vossa, a liberdade de viver. Ser adolescente e namorar, poder ir e vir, passar o fim de semana, viajar a Madrid ou a Londres ou a Roma ou a Barcelona com os namorados, dormirem juntos. Jantarem sozinhos quando a casa está por vossa conta.

Eu, nem pensar que tal fosse possível. O cinema era em grupo, as festas eram em grupo, um beijo era quase roubado para não se ver. Andar de mão dada não era costume. O braço a envolver o corpo era sinal de libertinagem.

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