Há 25 anos, Guterres só queria liderar o PS

“O Mundo é um lugar perigoso para viver, não por causa dos que fazem o mal mas por causa dos que observam e deixam o mal acontecer” – Albert Einstein

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“Para António Guterres o essencial da vida é a família. É casado com uma psiquiatra e tem dois filhos: o Pedro, de 16 anos, e a Mariana, de 6 (…). Na universidade, ligou-se a movimentos católicos, o que o levou a contactos com os bairros da lata de Lisboa: e o choque aproximou-o do socialismo. Na vida, tem inúmeras paixões, é um obsessivo leitor de livros de História, gosta de música séria, sobretudo de ópera italiana, e de viajar. Conhece mais de 50 países e espera chegar à centena antes de morrer” – assim caracterizou, no final de 1991, o jornalista Luís Fraga o seu entrevistado da edição de janeiro seguinte da revista Tomorrow. Nessa altura, Guterres candidatava-se a líder do PS, contra Jorge Sampaio – depois de antes ter divergido de Mário Soares – tendo sido eleito em 1992.

A abrir o seu trabalho, escrevia Luís Fraga: “À hora marcada, encontrámo-nos à porta do 127 da Avenida Duque de Ávila (…), mas António Guterres tinha-se esquecido da chave de casa e a empregada fora buscar-lhe a filha ao colégio. O recurso foi a entrevista no pequeno Y10 da mulher do deputado (…). O quente do momento era a carta aberta do companheiro António Barreto a Guterres, pintando um clima de divisão e intriga no partido”.

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Na conversa com o jornalista, o futuro secretário-geral – do PS e das Nações Unidas – defendia a sua oposição a Sampaio como muitos anos depois faria António Costa ao confrontar António José Seguro. “Senti que sendo o socialista melhor posicionado tinha a responsabilidade de agir”, respondeu, ao ser questionado se sentia ter chegado a sua hora de liderar o PS. E indicava depois o que considerava serem os grandes males da sociedade portuguesa: “Um sistema educativo que se degrada, um sistema de saúde que está longe de prestar os serviços necessários, e uma justiça que não funciona, burocratizada, lenta”.

Vinte cinco anos mais tarde, os nossos problemas mantém-se – e instalou-se o pântano… – mas Guterres, regressado através do alto comissariado para os refugiados às preocupações sociais que o trouxeram à política, deixou um país demasiado pequeno para ele e passou a ter por palco o Mundo. E onde já vai a centena de países! Como ele próprio disse um dia, é a vida.

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O destino trocou as voltas à engenharia e à investigação 

Conquistado o partido, em 1992, dois anos depois o foco de António Guterres estava nas eleições legislativas de 1995, em que venceria Fernando Nogueira por quase 10 pontos percentuais, pondo fim a uma ligação do PSD ao poder que vinha de 1979. Em entrevista à revista Dona, em dezembro de 1993, o líder do PS desafiava o Governo de Cavaco Silva pelas promessas não cumpridas e recordava os seus tempos no Centro de Acção Social Universitário, os 19 valores no curso de Engenharia eletrotécnica e a renúncia à carreira de investigação na área da Física. O seu destino era outro.

Parece que foi ontem, Sábado, 13OUT16

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