Duzentos milhões? Tudo é possível no manicómio

Ontem, em manchete, a “Marca” dava por certa a escolha de Zidane para o ataque do Real Madrid na próxima época: o sérvio Luka Jović, de 21 anos, que o Benfica emprestou em 2017 ao Eintracht, com opção de compra. É evidente que na decisão merengue terá pesado, por um lado a experiência do jogador – 64 (!) vezes internacional por todas as seleções, dos sub-16 à principal, e o seu rendimento na exigente liga alemã – e por outro o preço que os germânicos terão fixado pelo passe: 70 milhões de euros. Destes, cerca de 20 milhões virão para a Luz, juntando-se aos 10 ou 12 milhões da opção de compra, quase o dobro do que o Benfica pagou por Jović ao Estrela Vermelha.

A confirmar-se a compra – e por uma verba equivalente ou inferior à que Florentino conta realizar com Bale – ela constituirá um sinal que a porta do Bernabéu se fechou para João Félix. Não estará em causa a categoria do médio benfiquista, apenas o excessivo volume de decibéis com que por cá se inflaciona o seu valor. Félix é, aos 19 anos, um dos maiores talentos emergentes do futebol europeu, mas quando se começa a falar de verbas de 100 ou 200 milhões de euros – Vieira teria já recusado 75 milhões à Juventus e o lendário José Augusto, querido amigo, elevou há dias a fasquia para 150 milhões… – o interesse daqueles clubes que conseguem ainda manter-se fora do manicómio logo esmorece. Seguro é que a continuar a exibir-se à altura do que fez ontem, e em especial na quinta-feira, a parada por João Félix será alta. Acima de 100 milhões? Bem, nisso é que não acredito.

A jogar com 10 desde o minuto 5, o Sporting triunfou nas Aves, após mais uma exibição sem particular brilhantismo – em termos de um futebol de qualidade requintada – mas consistente, empenhada e profissional. Só um treinador muito competente, para mais vindo de outro planeta e sem facilidade de comunicação neste país estranho de gente desconfiada, poderia em pouco tempo apresentar uma série tão motivante de resultados positivos.

Justo seria também que num momento em que a produtividade da equipa é claramente superior não só às expetativas geradas como ao esforço financeiro que permite manter um plantel relativamente modesto – mais em teoria, pelo que se vê – se recordasse o trabalho desenvolvido por Sousa Cintra, que depois de apanhar os cacos conseguiu, com visão e conhecimento, formar um grupo coeso, competitivo e capaz de compensar a – igualmente relativa – ausência de nomes rutilantes. E relativa porque sobre valores firmes como Mathieu, Coates, Bas Dost, Acuña ou Battaglia paira essa estrela cuja contratação é o galão que ninguém pode retirar dos ombros de Bruno de Carvalho: Bruno Fernandes, nem mais.

Executante predestinado, motor de produção e capitão da equipa, catalizador da determinação e do orgulho leoninos, marcador de livres e de golos – também de cabeça! – o médio de 24 anos que a Sampdoria deixou fugir, por 8,5 milhões de euros, parece condenado a fazer parte do maior negócio da história do Sporting. Sim, se João Félix valesse 150 milhões, quanto valeria Bruno Fernandes?

No último parágrafo, assinalo o retorno à ribalta de um dos maiores desportistas de sempre, o golfista Tiger Woods. Aos 43 anos, o “Tigre” conquistou o Masters de Augusta (Geórgia, EUA), com 13 pancadas abaixo do par, pondo assim termo definitivo (?) a uma crise iniciada há uma década e que lhe ia acabando com a carreira. Felizmente, não desistiu: sem os grandes protagonistas o desporto não teria o mesmo encanto.

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