Doutores Labregos

Nestes quase 14 anos que levo a escrever no Record, perdi a conta às vezes que tenho criticado, sem cair no pecado da generalização, o pior do futebol português: alguns dos seus dirigentes.

Os jogadores evoluíram para o topo do Mundo, os nossos técnicos são do melhor que é possível contratar, os árbitros estão a anos-luz dos habilidosos de outros tempos, e só entre os que mandam – nos clubes e nas sociedades porque Federação e Liga passaram há muito ao patamar de cima – encontramos ainda, em múltiplas circunstâncias, os velhos broncos de sempre.

Engravatados ao estilo de doutores urbanos ou boçais saídos do batatal, tesos armados em empresários ou endinheirados sem reconhecimento social, falados nas páginas cor de rosa ou simplesmente conhecidos das primas, aí estão eles, um pouco por todo o lado onde salte uma bola, corrompendo consciências, espalhando conflitos e dando péssimos exemplos de conduta, e utilizando o palavreado próprio dos labregos que trocam a educação pela ordinarice.

Um amigo, incapaz de faltar à verdade, contou-me um caso recente a que assistiu, num almoço que reuniu o presidente de uma SAD, o diretor desportivo, o treinador da equipa e meia dúzia de convidados. A dada altura, o líder pôs o seu ar mais sério e avisou o técnico: “Olha que tu põe-te a pau com este gajo (e apontou o diretor desportivo) porque ele é mariconço. E o pior é que anda a comer o ponta de lança!” Haverá poucos assim tão maus, é certo, mas lá que a javardice faz escola, faz.

Canto direto, Record, 21NOV16

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