Crónicas da Sabado: rendido à evidência – 1

1. Rara é
a crónica em que o tema da semana não me obriga a abrir o armário das
recordações. Não é que me importe, afinal o tempo decorreu e, já que envelheci,
pois que a memória me ajude a enfrentar problemas, encontrar respostas e
compreender melhor a natureza humana. Sobre inquisições
poderia escrever aqui umas dezenas de textos, baseando-me apenas no que
vivi, como torturado ou como torturador. Mas esse seria mais um regresso ao
passado, talvez o único que não farei, uma vez que teria de trazer até à
atualidade bandidos desaparecidos, reformados ou já vencidos, crimes prescritos
ou safadezas de um outro eu que este, que hoje sou, acredita não merecer
expiar.

2. Não
deixa de ser curioso que se fale de tortura numa altura em que milhões de
portugueses – com exceção dos que integram o lote restrito de 1% de imunes a
cataclismos – sofrem com o irracional aumento da carga fiscal e com o racional
mas desumano combate à subsídiodependência em que nos especializámos. Por estes
dias, a versão revista e aumentada do pacote
Gaspar
chegou aos salários, embora só dentro de um mês, com os retroativos
– ou radioativos, como alguém lhes
chamou – sintamos na carne a verdadeira dimensão de um rombo que, a todos
atingindo, flagela mais cobardemente os pensionistas.

3. José
Mourinho fez 50 anos e Record e Sábado
publicaram os melhores trabalhos sobre o evento. E foi interessante verificar,
nalguns títulos, o tardio despertar e a desesperada habilidade de utilizar o discurso direto do treinador, sabendo-se
que ele não falou para a comunicação social portuguesa. Há quem continue a
considerar que os leitores são estúpidos, um erro fatal.

4. O
início da semana trouxe duas tragédias que nos tocaram de perto: o despiste
mortal do autocarro na Sertã e a imolação pelo fogo e pelo fumo de 200 e tal jovens,
numa discoteca do Brasil. No primeiro caso, é Portugal no seu pior, com a
submissão sacralizada aos ditames financeiros da Europa e o desrespeito
criminoso pelas suas normas. No segundo, é o espírito manhoso do lucro a
qualquer preço, com centenas de pessoas a tentar fugir por uma única porta,
fantasma de um Terceiro Mundo derrotado que voltou para matar.

5. Morreu
Jaime Neves, o general-comando, o braço armado de Ramalho Eanes, que fez, na
Grande Lisboa, em 25 de Novembro de 1975, pela força das armas, o mesmo que
Mário Soares fizera, quatro meses antes, no célebre comício da Fonte Luminosa,
pela firmeza das convicções: barrou o caminho ao aventureirismo militar e à
deriva de uma certa esquerda, manteve Abril no espírito com que foi feito e
evitou, com isso, uma guerra civil em Portugal. Desta tribuna o recordo, me
despeço dele e lhe digo: obrigado.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 31 janeiro 2013. Tema de Sociedade da semana: inquisidores e torturas…

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