Crónicas da Sábado: os dias do fim

Se os
cientistas dizem que a primeira hora de existência é importante para o que vem
a seguir, não haverá razão
para não acreditarmos. Embora essa descoberta se assemelhe mais às
crenças antigas, que persistem, e que apontam os astros como determinantes do
nosso destino. Enfim, creio na ciência, sempre e à frente de tudo, mas com a
minha costela de ignorância e de temor pelo desconhecido recuso-me a ficar
liminarmente afastado dos que garantem, ou apenas admitem, que o futuro possa
estar escrito nas estrelas. Gosto de reservar, na minha cabeça, um espaço onde
caibam as dúvidas dos burros logo abaixo das certezas dos professores. 

Na fase em
que estou, preocupa-me já mais a última hora de vida do que a primeira. Quanto
a esta, sei no que deu, entre a felicidade e o caos os seus efeitos são
irreversíveis, pelo que não desperdiçarei energias a olhar para trás. O que valho
não se verá no que fiz mas no que for capaz de vir a realizar. Para isso,
claro, preciso de tempo. E que tempo terei? A que atividade outra me poderei
dedicar?

Quando há
49 anos se publicou, no extinto Mundo Desportivo, a minha reportagem de
estreia, foi como se tivesse começado aí a viver: iniciava-se uma
extraordinária ligação ao papel – senão pelos méritos, seguramente pela
carreira de meio século que se seguiria. Trabalhei com jornalistas de uma
qualidade única, desde os que moldaram em mim o perfil que atravessou décadas,
até aos que nesta etapa simultaneamente angustiante e arrebatadora no Record
me ajudaram a cumprir um ciclo em que se realizou, com abnegação, êxito e dor,
o trabalho permitido pelas circunstâncias.

O problema
é que a imprensa em suporte papel atravessa um período de dificuldades que a
crise, o desemprego e a informação gratuita online carregou de uma forma
tão ameaçadora que os suportes digitais e a televisão são hoje obviamente o
futuro. E isso não é, para um dinossauro da letra impressa como eu, a
mesma coisa. Já não cheira a tinta, já não se desfruta do prazer lúdico de
folhear a edição, já não se sente a velha emoção da surpresa da página
seguinte. A frieza da internet e a informação nos oráculos tomaram conta do quotidiano, adaptaram-se melhor à pressa
estúpida das pessoas que correm para lado nenhum. Não se pode contrariar essa
torrente, é assim e pronto.

O papel não
morrerá tão cedo, mesmo que se acerquem os anos da perdição. Sobreviverão os
melhores títulos, terão trabalho os melhores jornalistas, a lei da oferta e da
procura decidirá quem fica e quem parte. Por mim, quero encarar cada próxima hora
como a primeira do que há-de vir, ou seja, viver os dias do fim com o sentido
da descoberta do bebé que, gritando, diz que chegou.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 27 junho 2013. Tema de Sociedade da semana: a importância da primeira hora de vida

Partilhar

Os comentários estão fechados.