Crónicas da Sábado: obrigado, burocrata

Corria o final do ano da
graça de 1967. Sentindo a nostalgia da participação em espectáculos na
adolescência, resolvi corresponder ao que julgava ser o apelo de uma vocação
definitiva e frequentar o antiquado curso de Teatro do Conservatório Nacional,
em Lisboa – antiquado para a época, note-se. Como trabalhava na Emissora
Nacional, outro baluarte do regime, não estranhei o velho edifício, no
Bairro Alto, a secretaria, as fardas – de um triste cinzento-azulado – do
pessoal então classificado de menor, ou a organização do serviço,
que eram emanações perfeitas do Portugal estagnado da altura.

Tanto tempo depois, parece
que estou a vê-la, já em 1968: teenager, lindíssima, introvertida e
inacessível. Olhava-se para Ana Zanatti como para uma deusa, dizia-se que seria
protegida pela toda-poderosa Amélia Rey Colaço, que reinava no
teatro português e que era também divindade de uma arte ainda intocada pelo
vírus da televisão – que praticamente lhe destruiria a pureza, anos mais
tarde, com o advento das telenovelas – e que vivia muito de figuras lendárias
da representação, como Palmira Bastos, Estêvão Amarante, Alves da Cunha, Maria
Matos ou Nascimento Fernandes. A verdade é que Ana Zanatti chegara com o ano
lectivo em curso, quebrando assim as regras de implacável rigidez da
secretaria, e poucas semanas se manteve nas aulas, pois depressa foi chamada
para um papel numa peça, creio que no Teatro da Trindade e sob a direção de
outro nome grande: Ribeirinho.

Vi na facilidade com que La
Zanatti entrou e saiu do Conservatório uma oportunidade para tentar conciliar a
minha atividade de funcionário público com a de estudante de um curso oficial.
Como trabalhava por turnos na rádio, era obrigado a faltar algumas vezes, o que
me levaria a perder o ano. Com o generoso apoio do professor – igualmente
actor, encenador e realizador da RTP – Álvaro Benamor, que descobriu em mim
qualidades de que eu próprio duvidava, pedi ao diretor do Conservatório,
maestro Ivo Cruz, dispensa de comparência nas aulas em causa. Mas apesar da sua
anuência, o chefe da secretaria, o verdadeiro pilar da confraria, repetia, sem
se cansar: “Sim, senhor diretor, podia muito bem ser como diz, mas a lei… o
problema é a lei, senhor diretor”. E fazia a vénia de Richelieu a Luís XIII,
com um ar falsamente compungido.

Em dois ou três meses, já
metido no teatro amador, no Clube Estefânia, desisti do curso e hoje não culpo,
nem Deus, nem o burocrata, pelo meu destino. Ana Zanatti tem, por mérito e pelo
que bebeu dos mestres, a carreira gloriosa que se conhece. E eu encontrei nesta
outra forma de comunicação, não a glória, mas a alegria de ter passado a vida a
fazer aquilo de que gosto.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 30 maio 2013

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