Certa não é a vitória, certa é a estupidez

Só paciência dos leitores e do diretor do CM permite que se cumpram hoje sete (!) anos de “Antena paranoica”. Grato pelo privilégio.

Gostaria de me focar apenas no caso daquela juíza que se condoeu do “arrependimento” de um violador – que em dois anos tudo fez para não ser apanhado – e o libertou, não valorizando tanto a vida destroçada da mulher violada. Quando a justiça põe a eventual reabilitação do criminoso à frente dos direitos da vítima, é a civilização que cede à barbárie.

Mas a greve de menos de metade dos trabalhadores da Autoeuropa, que mesmo assim paralisaram a fábrica, mudou-me os planos. É que não consigo – porque as vivi em 1975, com resultados devastadores – esquecer-me das imagens dos efusivos abraços de “vitória”, trocados pelos sindicalistas narcisistas perante as câmaras, como se tivessem derrubado as muralhas e tomado a cidade.

Sei o que é trabalhar por turnos, incluindo fins de semana, e calculo a dureza de uma linha de montagem. Mas uma coisa é negociar melhores condições, outra é pôr em causa o futuro de três mil trabalhadores. Que lhes dirão os sindicalistas se a fábrica vier a encerrar? Que a vitória é certa? Certas só a cegueira ideológica e a estupidez – juntas, então, são uma tragédia.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 2SET17

Os comentários estão fechados.