Catenaccio a menos e barbárie a mais

Por muito que o por vezes irritantemente otimista discurso de Rui Vitória o negue, os recentes acontecimentos que mantêm, com razão ou sem ela, o nome do Benfica nas manchetes generalistas fazem os jogadores sentir o peso da responsabilidade acrescida que chega de fora: os encarnados precisam desesperadamente de ganhar – por causa do penta e do resto. Na partida com o Rio Ave, depois de uma primeira parte dececionante, a equipa reencontrou-se no segundo tempo e goleou, deixando-me duas simples interrogações: por que não joga Rafa com regularidade? Por que não vemos Raúl Jiménez mais vezes como titular? O golo do mexicano, parecendo fácil, fez lembrar Luis Suárez ou Lukaku, pela espontaneidade no remate que define os pontas de lança.

A propósito do Benfica-Rio Ave, volto a um tema que desenvolvi, há duas semanas, na minha página da “Sábado”: a passagem do técnico ítalo-franco-argentino Helenio Herrera, um dos grandes treinadores da história – com resultados fantásticos no Barcelona e no Inter – por Portugal e pelo Belenenses. HH só optava pelo futebol de ataque quando dispunha de artistas para o pôr em prática e sabia como poucos tapar os caminhos para a baliza das suas equipas – ou não fosse ele um dos mais fiéis intérpretes do célebre “catenaccio”, de Nereo Rocco. Mal se apanhasse a ganhar, em especial com adversários fortes, aplicava o plano B e era uma chatice. Recordo-o porque não compreendo como é possível estar a vencer na Luz o Benfica, ao intervalo, e entrar para a segunda parte sem alterar o esquema tático, na tentativa já não digo de triunfar, mas ao menos de não levar “chapa 5”. Ainda se fosse uma equipa do fundo da tabela… mas o quinto classificado?

Já tinha acontecido na última assembleia-geral do Benfica e voltou a suceder agora com as de Sporting e Belenenses. Em Alvalade, o “savoir faire” de Jaime Marta Soares parou a festa quando sobraram os insultos, enquanto no Restelo os sócios chegaram mesmo a vias de facto. Não me vou alongar em considerações, apenas referir os factos na esperança, ténue, de que algum dia haja vergonha.

Em contraciclo com a barbárie, saliento o comovente minuto de silêncio com que Old Trafford assinalou, no sábado, antes do jogo com o Huddersfield, a passagem de 60 anos sobre a queda do avião que vitimou oito jogadores do Manchester United e mais 15 passageiros, a 6 de fevereiro de 1958, em Munique. As câmaras de TV focaram em particular um dos sobreviventes, o já lendário Bobby Charlton, hoje com 80 anos, perante o impressionante silêncio das bancadas. Refiro essa homenagem porque entre nós, desgraçadamente, um momento desses logo seria manchado pelos urros e assobios de uns quantos anormais. Como se tem visto nos últimos tempos – em recintos desportivos, zonas de acesso aos estádios ou assembleias-gerais – a civilização tarda em instalar-se em Portugal. E será que chega algum dia?

Outra vez segunda-feira, Correio da Manhã, 5FEV18

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