A propósito de Henrique Garcia: a máquina do tempo é cruel

Vivemos num país que valoriza pouco a experiência e sempre se entusiasma com a novidade e a presunção. Profissionais de cabelos brancos, que o Estado convida a seguir em ação, são postos de lado à primeira oportunidade por quem só depende de números e ignora a memória e a gratidão. Não defendo causa própria, pois reduzi a atividade na altura certa e sinto-me preparado para o inevitável dia em que o leitor estará cá e eu já não. Escrevo isto a propósito de Henrique Garcia, que aos 70 anos foi dispensado pela TVI, por carta, num procedimento legal, frio, talvez injusto.

Conheci o Henrique, na rádio, no duro período pós-revolução, e a política afastou-nos, o que não me impede de reconhecer que foi dos mais talentosos jornalistas com quem trabalhei – e desejo o melhor para a fase seguinte da sua vida. Mas recordo também uma gestora com quem muito aprendi e que a respeito de um quadro veteraníssimo da empresa, que se tornara num peso e resistia à retirada, me disse: “Se não fizermos nada, aos 100 anos ele ainda cá está”. É mais do que certo: quando não formos capazes de perceber – mesmo sentindo-nos “como novos”, maravilhosos – que o dia de parar chegou, alguém o fará por nós. A máquina do tempo é cruel, é um animal feroz.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 5MAI18

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