A noite em que se quebrou o ciclo do ódio

As ignições sucessivas de ódio e estupidez, promovidas por inúmeros incendiários com responsabilidades no futebol português, criaram o insuportável clima de animosidade e ressentimento em que mergulhámos nos últimos anos e resultaram numa guerra que produz apenas vencidos. Só quebrando o ciclo vicioso de agressão seguida de retaliação – e de nova agressão com nova retaliação e por aí fora – será possível pôr fim a um conflito que tem tanto de imbecil como de inútil.

Nunca até ao passado sábado algum dos envolvidos na vergonha havia tido a grandeza de tomar a iniciativa de dizer: acabou. Foi preciso o retorno ao ativo de um presidente jubilado e imune à doença para se dar esse primeiro passo. Os insultos a Sousa Cintra, Torres Pereira e Marta Soares, nas redes sociais, por parte dos radicais do próprio clube – muitos já nascidos no caldo de acrimónia permanente – pela presença na tribuna durante o dérbi da Luz, só confirmam a extraordinária dimensão do seu corajoso gesto. Só espero que a nova direção leonina não volte a cair na tentação do compromisso com a turba ululante.

A seguir, a última parte das declarações de Sousa Cintra ao jornalista Neves de Sousa, em março de 1990. O atual líder da SAD leonina explicava, na primeira pessoa, as negociações que o conduziriam à liderança.

O vazio que levou Cintra à presidência (conclusão). Não queria ser moço de recados nem figura decorativa. O Sporting não se compadece com essas coisas. Cortei com eles e estava cortado. Decido avançar sozinho, arranjo umas pessoas à pressa porque não tinha ninguém e não estava metido nestas coisas do desporto. Foi tudo uma coisa feita à pressa. Arranjei um quadro em cima do joelho. Depois de muita conversa e muita louça partida, finalmente acerto com o Carlos Monjardino: se ele quisesse candidatar-se, eu desistia em favor dele. Disse-lhe isto. Continuei a avançar, preparei umas coisas para a campanha e estava eu muito bem descansado quando me apareceu o advogado, dr. Abrantes Mendes, e o médico, dr. Costa, com uma mensagem do dr. Monjardino. Tinha decidido candidatar-se e era para ver se eu desistia. “Com certeza, só tenho uma palavra”. Então, convoquei uma conferência de imprensa para dizer que, tal como estava combinado, eu desistia a favor do Carlos Monjardino. E estou na conferência quando o telefone toca e me dizem que o Monjardino tinha decidido desistir outra vez. Ainda pensei se seria verdade. Cheguei ao escritório e tinha uma carta, entregue às seis e meia da tarde, com protocolo, a dizer que ele desistia. Aquilo parecia uma autêntica palhaçada. Depois da conferência de imprensa… Era para deixarem o Simões completamente livre. Eu já tinha desistido. Porém, tive muita pressão dos sócios, de diferentes grupos: vinham para aqui [escritório da Vidago] e para minha casa esperar por mim, com bandeiras… Arranquei praticamente na ponta final, tive só três dias, foi uma coisa em cima da hora. Da minha lista, só algumas pessoas é que eu conhecia…

Em 24 de junho de 1989, Sousa Cintra foi eleito presidente do Sporting, com 40.898 votos. António Simões obteve 16.063, Jorge Gonçalves 6.522 e Miguel Catela 109 votos. Era o fim da crise.

Outra vez segunda-feira, Record, 27AGO18

Partilhar

Os comentários estão fechados.