A noite do mestre e do ex-aluno (e as opções de 1.ª página)

Quando ouvi Pinto da Costa desvalorizar a Taça de Portugal, torci a orelha. Mestre na arte da dialética, ele nada mais pretendia do que alargar a convicção benfiquista da passagem à final até ao limite, com a finalidade de tornar esse otimismo ainda mais perigoso, enquanto Villas-Boas e os jogadores preparavam a ação em campo.

Para ajudar à festa de ontem, a razoável primeira parte dos encarnados – com Javi García a falhar o golo por centímetros, após um belo golpe de cabeça, e Júlio César a fazer a defesa impossível, sozinho na frente de Falcão, o “matador” impiedoso – mais convenceu os da casa que o nulo que se mantinha ao intervalo chegava e sobrava para garantir o êxito.

É não conhecer o bicho. É não acreditar que apenas marcando primeiro, e o mais cedo possível, poderia o Benfica intranquilizar uma equipa estruturada, motivada, mentalmente muito forte e que só morre quando o peso da terra impede o caixão de se voltar a abrir.

O Benfica tinha tudo na mão e tudo perdeu, por falta de competência na hora da verdade. Agora, só a Liga Europa – a Taça da Liga saberá a pouco… – poderá fazer com que a sua época não se salde por um claro fracasso.

Ao mesmo tempo que o clube da Luz se afundava perante os seus desolados adeptos, em Valência o Real Madrid começava a quebrar a já crónica hegemonia do Barcelona, primeiro com a esperada lição tática de José Mourinho, depois com um enorme golo de Cristiano Ronaldo e mais duas exibições de gala de Pepe e de Ricardo Carvalho.

O inesquecível Alfredo Di Stéfano, “la saeta rubia”, hoje presidente honorário dos merengues e colunista da “Marca”, escrevia há dias que o Real era uma equipa sem personalidade e que Messi era o melhor de todos os jogadores, engrossando assim as hostes do jornalismo chauvinista do país vizinho, que julgava chegada a hora do ajuste de contas.

Enganaram-se. E enganou-se D. Alfredo. Até uma lenda do futebol se esquece que só há uma coisa que conta no jogo: as bolinhas dentro da baliza. Mourinho ganhou a Taça do Rei e o resto é conversa que a história não registará. O mestre e o ex-aluno estão de parabéns.

Minuto 0, publicado na edição impressa de Record de 21 abril 2011

Nota do diretor de Record

Alguns leitores de capas de jornais nas bancas ou na internet, não compradores, portanto, insurgiram-se – como se tivéssemos de lhes prestar contas… – contra a 1.ª página da edição impressa de hoje. Admito que haja entre esses fanáticos, desta feita do FC Porto, pessoas bem intencionadas, pelo que passo a explicar:

1. A capa de um jornal, onde se escreve que um árbitro não esteve bem, não dispõe de espaço para se descrever todos os erros de um juiz da partida. Para isso, o jornal tem muitas páginas no seu interior.

2. Além da impossibilidade de expor o rol completo de erros à leitura gratuita, optámos por destacar apenas a irregularidade do lance do segundo golo do FC Porto, por ter sido o principal lapso da equipa de arbitragem e o único que teve influência direta no resultado.

3. Ao contrário desse lance, o do penálti apontado a favor do Benfica é controverso. Eu, por exemplo, aceito que o árbitro tenha considerado falta, tal como não me indignaria que a tivesse considerado que ela não existiu.

4. Um resultado final de 0-3 ou de 1-3 teria o mesmo resultado: a eliminação do Benfica. Já um resultado final de 1-2 (se o segundo golo portista tivesse sido anulado, como deveria) daria a eliminação do FC Porto.

5. Quem hoje comprou a edição impressa de Record – e a esses, sim, temos contas a prestar – leu, na pág. 6, que o diretor adjunto de Record, António Magalhães, considerou o penálti “fantasma”, como leu, na pág. 10, nas análises dos casos do jogo, as opiniões de José Augusto e Rodolfo Reis, que disseram não ter havido penálti, e a conclusão de Record: “decisão errada de Carlos Xistra”. Essa é, portanto, a posição oficial do jornal.

6. Com ou sem erros do árbitro, o FC Porto foi, uma vez mais, um justo vencedor. Parabéns.

7. Quem não compra o Record e vê apenas as capas à borla, pretendendo, apesar disso, encontrar lá a sua “verdade” e não a do jornal, que se desiluda. O nosso caminho é este e por ele continuaremos. Passem uma Páscoa na paz do Senhor.

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