A crise é uma oportunidade para mudar. E o futebol?

Em Inglaterra, os clubes que não tiveram as suas partidas adiadas por causa da neve jogam três vezes numa semana em plena época de festas e no próprio dia de Ano Novo. E os estádios, claro, estão cheios como ovos.

Já em Portugal é o marasmo que se conhece, tudo serve para suspender o campeonato, a consoada e a lareira são sagradas, e quando se vê alguma vontade de jogar lá vem a entendiante Taça da Liga, com dois ou três monótonos desafios que não interessam nem ao menino Jesus. E os estádios, claro, estão às moscas.

Esta letargia do futebol português, que o há-de fazer mergulhar na ruína, não na que já fervilha mas noutra, mais evidente e mais profunda – aquela que não arranja sequer maneira de pagar a fatura da luz –, tem pouco a ver com as pessoas que pensam e que tomam as decisões, e muito com a nossa própria natureza ou com aquilo que fizeram de nós.

Quem esta semana  se viu forçado a entrar num centro comercial não terá deixado de bater em retirada o mais depressa possível para fugir a milhares e milhares de frequentadores em frenética busca de promoções, de cinemas, de restaurantes ou mesmo de coisa nenhuma. Que faz na vida tanta gente? Como nem todos são estudantes, nem desempregados, ou meteram férias para poderem vaguear ou andam a fingir que trabalham.

A única vantagem que descubro na aterradora crise que vivemos, e que se irá agravar, é a oportunidade que se abre às empresas – às que resistirem, claro – de alterar a organização, os critérios de gestão e as mentalidades, tornando-se mais competitivas e mais capazes de crescer. E só esse crescimento nos retirará do buraco.

O problema é que essa catarse não chegará ao futebol, área onde os vendedores de ilusões, sem coragem para contrariar exigências delirantes, preferem arrastar tudo para o fundo com eles.

Bem, talvez sobrevivamos. Feliz 2011, leitor.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 30 dezembro 2010

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