A alfândega, o poster e as barbas à Che

Assinei no Record uma crónica sobre o último Sporting-Benfica, que intitulei “O dérbi dos barbudos” porque dos 28 jogadores que atuaram em Alvalade apenas cinco se apresentaram com o rosto escanhoado. É uma moda que atravessa o futebol por todo o Mundo e que me fez recuar mais de quatro décadas, ao tempo em que por cá a malta nova deixava crescer barbas e cabelos como forma de protesto pela ditadura, uma influência guevarista e fidelista, que vinha dos anos 60, na sequência da revolução cubana.
Mas Fidel era el comandante e seguia a cartilha soviética, enquanto Guevara atraía mais os jovens pelo idealismo que o fizera trocar os charutos e outras mordomias de Havana pela dureza da guerrilha na Bolívia.
No início da década de 70, no regresso de Londres, fiquei sem um poster do Che, que me foi apreendido pela alfândega do aeroporto de Lisboa, o preço que paguei para fazer passar, debaixo da roupa que trazia no corpo, uma camisola com estampa idêntica e que conservei até hoje como símbolo de um tempo único e sedutor. Bem mais sedutor, aliás, do que Guevara, responsável por execuções em massa em Cuba, confirmadas em 1964 com uma frase que o próprio Che terá proferido na ONU: “Fuzilamentos, sim, temos fuzilado; fuzilámos e continuaremos a fuzilar”. Um destino triste que lhe tocou a ele, em 1967, quando foi abatido a tiro – sem julgamento e sem glória – num barracão da selva boliviana.
Meio século decorrido, o que resta do mito? Talvez a utopia e pouco mais.
Parece que foi ontem, Sábado, 4MAI17
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