Tributo a um herói do que realmente é importante

Acusado de nunca aparecer nos momentos importantes e, até há dois meses, de estar “acabado”, bastaram dois minutos e dois centros de Quaresma para Cristiano Ronaldo transformar a derrota iminente numa vitória quase inacreditável. Mas atenção ao resto. Igualmente na senda do que se tornou comum, a Seleção jogou poucochinho com o Egito, pelo que nos deixou mais preocupados quanto ao que poderá acontecer hoje na Suíça. Só que também aí se espera que os nossos jogadores honrem a tradição dos últimos anos e desenvolvam o trabalho necessário para vencer. E isso chega.

Já salientei aqui, por diversas vezes, a importância de se homenagear em vida. Em Portugal, várias tentativas de galas e de “galinhas”, no futebol e no resto, não viveram tempo suficiente para serem lembradas. Porque a atribuição de qualquer troféu só se consolida se, primeiro, quem os atribui tiver prestígio e autoridade para premiar, depois, se houver lógica e justiça na escolha dos distinguidos – ou seja, que não se trate de trocas de galhardetes entre agentes corporativos e amigalhaços – e, finalmente, se os próprios premiados dignificarem a iniciativa com a sua presença. E tem sido possível reunir essas três condições na entrega das Quinas de Ouro, fazendo da cerimónia, e do próprio prémio, um êxito assinalável. De parabéns está, por isso, a Federação Portuguesa de Futebol e o seu presidente, mesmo descontando o facto de ser difícil aos eleitos não dizerem “sim” à sua entidade patronal – atual ou futura.

Usain Bolt fez um treino sensacional com o Borussia Dortmund? As imagens que conhecemos são prometedoras, é certo, mas o atleta, que completará 32 anos em agosto, terá ainda tempo para construir uma carreira de sucesso no futebol? Duvido muito. Além do mais, Michael Jordan não logrou ser um golfista extraordinário, Lance Armstrong não deu um bom maratonista…

A face do ténis está a mudar, a voragem do calendário é inexorável. Do top 5 de há poucos anos, quem sobra? Roger Federer perdeu a boa forma e imitou agora Novak Djokovic, sendo ambos eliminados do Open de Miami logo no primeiro encontro. O suíço cedeu também o número 1 do ranking ATP a Rafa Nadal, não se sabe por quanto tempo, já que o maiorquino – que reaparecerá em Monte Carlo, em abril – tarda em recuperar dos seus problemas físicos. Aliás, como Stan Wawrinka, cuja derradeira aparição foi menos dele que da sua sombra. E com Andy Murray, então, nem vale a pena contar, a lesão eterniza-se.

O último parágrafo é hoje dedicado ao tenente-coronel francês Arnaud Beltrame, de 45 anos, que se ofereceu para substituir uma mulher feita refém pelo terrorista que assaltou o supermercado de Trèbes. Gesto sublime o seu, respeito infinito o nosso! Com esse ato de profissionalismo e coragem – e do mais puro heroísmo – Arnaud honrou o compromisso com a instituição que servia e com os seus concidadãos. A dádiva da sua vida constitui uma lição que nós, mestres do futebolês acéfalo, devíamos aprender para sempre, corando de vergonha quando insistirmos em chamar “heróis” a simples triunfadores de ocasião.

Outra vez segunda-feira, Record, 26MAR18

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